quinta-feira, 11 de junho de 2026

Resquícios das Guerras Ultramarinas

Jota.Coelho, 11.04.26 O Despertar dos Combatentes – em Tempo de guerra . Nestes tempos sombrios da actualidade portuguesa e perturbações na sociedade mundial, é nosso dever realçar os feitos extraordinários nas descobertas de novos mundos e relacionamento amistoso dos nossos antepassados com outros povos; bem como dos seus engenhosos processos inovadores no desenvolvimento de novas técnicas de navegação e produção de alimentos para longas distâncias. Temos aqui um manancial de motivos para nos reanimar a esperança de lutarmos com convicção para melhorarmos o rumo da nossa vida colectiva, no sentido de melhores condições de vida e de progresso harmonioso, dentro duma nação com história e valores de dimensão mundial. Os Combatentes portugueses, nas guerras ultramarinas, foram os continuadores das memoráveis descobertas e souberam partilhar muito das suas vivências com as populações das terras para onde foram destacados. Mas a guerra é sempre incómoda e destrutiva; razão por que é natural que nenhum ser humano deseje a guerra. As lembranças da guerra fazem parte de nós… são o espólio que não conseguimos entregar no quartel aquando da desmobilização; fazem parte do nosso espólio de combatentes participantes numa guerra estranha e mal compreendida! Na embriagues do destino, fomos atirados para a guerra e confrontados com situações de espantar! Uns mais que outros, todos sentiram a mordedura da guerra nas suas vidas, tanto nos acampamentos e destacamentos isolados e espalhados entre as savanas e matas, como nos aquartelamentos das vilas ou aldeamentos mais protegidos. .
Quantas vezes, as deslocações se tornavam num inferno, tal a intensidade de fogo inimigo ou a potência das minas e dos fornilhos enterrados nas picadas. As morteiradas sobre os aquartelamentos eram um fadário angustiante, com as vidas pendentes enquanto não cessassem os vómitos das bocas-de-fogo e o zumbido da metralha nos ouvidos. Quando as camaratas eram atingidas e as camas desfeitas, os destroços nada valiam; tínhamos que fazer tudo de novo, reconstruir os alojamentos precários. As memórias da guerra são arrepiantes para muitos dos intervenientes directos e deixaram marcas inapagáveis. Os danos da guerra são dolorosos e deixam feridas difíceis de curar. Além da destruição dos bens, perdem-se amizades e as relações entre seres humanos que valorizam a vida e a sua essência. É contra todas essas perdas que devemos reagir dando valor à riqueza que nos resta - fortes laços de amizade e camaradagem, porque, entre os intervenientes nas guerras, esses valores foram a trave-mestra a segurar a frágil condição humana de muitos combatentes, nos primeiros tempos de missão. Alguns perderam a bússola das suas vidas, numa agitação anormal da consciência e das emoções; não fora a mística do companheirismo e a camaradagem cimentada nas mais difíceis condições de sobrevivência e a desgraça dos traumatizados teria atingido uma dimensão muito mais grave e penosa para a sociedade portuguesa. -
Os jovens que um dia partiram das suas terras, arrancados do seio das suas famílias e dos seus empregos, foram desembarcados nos confins das terras de África, onde sobreviveram às angústias e aos perigos da guerra, também saberão responder adequadamente aos governantes que os desprezam como gente reles da sociedade. Saberão honrar as memórias de todos os que morreram ao serviço da Pátria, porque são os guardiães dos nobres valores da Nação civilizada e porque juraram defender a bandeira de Portugal contra os traidores que a amarrotam e os cobardes que a envergonham; a força da ética e da moral militares são válidas em todos os escalões da sociedade, tanto na formação dos cidadãos como na aplicação da justiça. Pena é que muitos façam por ignorar tal factor de estabilidade social na educação e no equilíbrio emocional. Ninguém se esqueça que os combatentes foram empurrados para a guerra em circunstâncias adversas aos seus interesses familiares, profissionais e formação escolar, com fundamento na preservação do território português, tão propagado pela comunicação social e nos discursos oficiais. As características do povo português têm pouco de guerreiros, mas muito de inocência ou moralismo ancestral, porque sempre fomos um povo mal compreendido pelos governantes com o complexo de superioridade justificado no compromisso mais absurdo da condição humana. A pregação dos superiores hierárquicos nunca foi capaz de justificar as razões da guerra nas terras ultramarinas, gratificante para alguns que colheram bons proventos, mas desgastante e dolorosa para a generalidade dos combatentes. .
Por razões de conveniência partidária, política e interesses militares, o abandono das terras ultramarinas criou graves prejuízos a muitos milhares de cidadãos que lá viviam, sendo a culpa da descolonização atirada para cima dos combatentes desmobilizados e abandonados à sua sorte. Por isso, aqueles que conseguiram integrar-se na sociedade, trabalhar e participar no desenvolvimento do país, tiveram o mérito de galgar as dificuldades e viver; já o mesmo não aconteceu com os que nunca conseguiram limpar da sua mente os traumas dos momentos difíceis, os quais continuam a carregar dentro de si as imagens terríveis dos mortos e esfacelados caídos a seu lado, muitas vezes por falta de meios de socorro. Todos merecem respeito e reconhecimento, mas estes merecem, também, tratamentos de recuperação do stress de guerra, solidariedade pública, apoio social e financeiro. Amares, 25 de Abril de 2016 Joaquim Coelho – Combatente e jornalista .
link do post comentar favorito início