Democracias Ocidentais – A Alienação Formatada
Ainda temos Liberdade de pensar… mas perdemos o direito de exigir, porque as entidades públicas nos fecham as vias de acesso à reclamação. Neste cenário de sinistra escuridão, estamos a perder o direito de existir! Tudo se encaminha para o limbo da vida que nos sufoca num programa ardilosamente formatado com capacidades tenebrosas de alienação colectiva da sociedade humana.

“Como é possível que os governos “democraticamente” eleitos nos EUA e na UE (e nos Emirados e Israel) cometam um crime contra a humanidade, como o bloqueio e sanções a países soberanos, em nome da “democracia” e do seu já apodrecido apêndice a "liberdade"?”
Se nos debruçarmos sobre a história dos últimos sessenta anos, ficamos espantados com a quantidade de atrocidades cometidas contra povos indefesos e protagonizados pelos países ditos democráticos!
Verificamos que “os chamados “países democráticos do Ocidente” têm uma longa e abominável história de intervenções abertas ou disfarçadas contra a soberania dos povos do Oriente, África e América Latina. Um processo de expansão colonial e imperial (pilhagem e destruição) que continua de várias maneiras até hoje.”
Um imenso aparato de propaganda na comunicação social encarrega-se de transformar a ingerência e a destruição de povos inteiros numa necessidade quase messiânica das “democracias” ocidentais. Nesta imensa teia propagandística, muitos dos cidadãos dos EUA e da EU nem se dão conta do embuste e acreditam ou presumem que vivem num sistema democrático. E nesta espécie de alucinação colectiva, perdem o sentido do humanismo, deixando de ver e ouvir o grito dos desesperados morrendo por causa de bombardeamentos genocidas.

Será possível que esta tremenda matança de inocentes não nos acorde da perigosa letargia da cegueira que mascara os direitos dos cidadãos? Como será possível continuar a aceitar as criminosas intervenções dos poderosos contra os povos indefesos? Isto só pode acontecer porque os cidadãos dos países avançados ainda acreditam que vivem num sistema democrático, com governantes humanamente democratas, com direitos garantidos!
Como não bastassem as atrocidades e destruição das guerras, vejam-se os resultados e os efeitos nefastos das Organizações ditas humanitárias dependentes da ONU, da Organização Mundial de Saúde e grupos de vários tipos, que parecem estar a favor das grandes causas humanas (contra a fome, a doença, a injustiça), mas por lá proliferam os negócios das reformas sociais e políticas nos países ditos pobres; as restrições ao desenvolvimento sustentável e ajuda à melhoria das condições de vida das populações são um embuste bem calculado para continuarem a ser roubados nos seus recursos naturais, a troco de umas migalhas repartidas dentro dum sistema que produz miséria absoluta na maior parte do planeta.

Todas essas ONGs e suas engenharias de reformas nunca irão alterar o sistema de exploração e expropriação, programada e alimentada para defender a propriedade privada dos poderosos, o capitalismo e o imperialismo americano, mesmo tendo que ceder ao que se chamou de "estado de bem-estar" no Ocidente, algumas migalhas em troca do silêncio e passividade; também em troca de continuar com uma exploração neocolonial criminosa da Ásia, África e América Latina, que permite continuar a acumular fortunas colossais, em nome da "democracia ocidental".
“Isso é liberdade, sem força ou verdade… é apenas uma máscara de obediência absoluta e inconsciente. Estamos acostumados a isso: as pessoas votam e vivem pelo “menos pior” porque o horizonte que deveríamos imaginar ou ver já foi destruído conscientemente. Até a ideia de progresso se mede pela quantidade de compras e vendas, nunca pela qualidade e sentido do trabalho humano - que humaniza - pelo direito à vida, a uma rica cultura coletiva, à saúde da maioria.
A verdade é que os governos dos Estados Unidos e da UE usam a palavra "liberdade" e "direitos humanos" para condenar e sancionar países soberanos e participar nos mais hediondos crimes de guerra, em nome da "democracia ocidental".
Mas esta mutilada “democracia” ocidental não pode e nunca conseguirá vencer a consciência e a dignidade dos povos que, apesar do bloqueio, diariamente sobrevivem com coragem para derrotarem o império do mal.”
Texto em Itálico: Sara Rosenberg

NOTA: Miguel Sousa Tavares, nem sempre assertivo nas suas intervenções, trago à colação este texto de opinião... um alerta para várias incongruências que nos vão atormentando.
Os homens devem estar loucos
(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 20/09/2024)
Atravessámos décadas de Guerra Fria a evitar cuidadosamente que qualquer dos lados fosse levado a sentir-se ameaçado ao ponto de perder a cabeça e carregar no botão. E agora andam a brincar com o fogo, testando até onde irá o sangue-frio e o juízo de alguém que eles próprios classificam como louco e assassino. Quem são os loucos, então?
No “Fórum TSF”, discutindo-se o envio de armas de longo alcance para Kiev, com a finalidade de serem utilizadas contra território russo, e as possíveis represálias de Moscovo a essa escalada da guerra, um ouvinte, corajosamente sentado na sua secretária, opinava, seguro, que nada havia a temer: mesmo que Putin levasse avante a sua ameaça de recorrer a armas nucleares, e se bem que o arsenal russo seja o maior do mundo, a superioridade tecnológica ocidental garantiria a vitória final.
Uma douta opinião, por muitos partilhada, mas que assenta em duas presunções, uma abusiva, a outra simplesmente idiota. A presunção abusiva é a habitual, a de que cada vez que Putin abre a boca está a ameaçar com armas nucleares. Curiosamente, nunca o fez, pelo menos explicitamente, mas são sempre os media e os dirigentes ocidentais que põem a ameaça nuclear na boca dele: ou porque lhes interessa para efeitos de propaganda ou porque acham mesmo, e temem, que essa possa ser a resposta fatal a cada novo passo do engajamento da NATO na guerra da Ucrânia.

O que Putin disse desta vez foi que o fornecimento de mísseis de longo alcance a Kiev por parte de países membros da NATO, acompanhado da licença do seu uso contra território russo (e dos mercenários especialistas na sua manobra), equivaleria a uma declaração de guerra da NATO à Rússia, a qual “acarretaria consequências”. Sem perder tempo, essas “consequências”, tal como no passado, foram imediatamente traduzidas pela ameaça de utilização da arma nuclear. Quanto à presunção simplesmente idiota do ouvinte da TSF, ela consiste em imaginar que uma guerra nuclear na Europa, entre a NATO e a Rússia, se limitaria ao território da Ucrânia e que dela restariam vencedores e vencidos.
Como é que chegámos aqui, a este patamar de insanidade geral, com os nossos governantes a acumularem passos cada vez mais próximos do caminho de uma terceira guerra mundial, sem que os povos sejam esclarecidos e consultados? Que Putin o faça com o seu povo, ninguém estranha: é um ditador. Mas, e as democracias? Ainda agora vimos o novo PM inglês, o trabalhista Keir Starmer, correr a Washington para suplicar a Biden que junte os ATACMS americanos aos Storm Shadow ingleses e aos mísseis franceses para uma tempestade de fogo sobre os céus da Rússia. Acrescentou que se trata apenas de “ajudar a Ucrânia a enfrentar o inverno” e a conseguir prosseguir a guerra em pé de igualdade.

O louco não só quer continuar a guerra sem fim à vista como ainda acredita, ou finge acreditar, que a Ucrânia pode vencer a guerra, mesmo quando já não dispõe de soldados que queiram combater e civis que queiram continuar a viver debaixo de bombardeamentos e escombros.
Como disse o Presidente mexicano, López Obrador, a mensagem do Ocidente para Kiev continua a ser “vamos continuar a guerra, com as nossas armas e os vossos mortos”. No que à Inglaterra respeita, esta tem sido, aliás, uma política consequente e consensual: foi o antigo PM Boris Johnson quem, ao segundo mês de guerra, foi expressamente a Kiev dizer a Zelensky que não assinasse o acordo de paz com a Rússia, já negociado em Ancara, pois que era possível correr com a Rússia da Ucrânia à força, com os meios que os países da NATO poriam à sua disposição. O mesmo Boris Johnson que depois de sair de Downing Street se dedicou a correr mundo dando conferências sumptuosamente pagas para defender a continuação da guerra, onde os ucranianos combatiam em defesa das propostas e dos honorários dele…
Mais tarde, foi o secretário da Defesa americano, Lloyd Austin, quem foi a Kiev reforçar a mensagem ocidental, explicitando que o objectivo final da guerra da Ucrânia não era apenas correr com os russos de lá, mas enfraquecê-los de tal maneira que de futuro não mais se atrevessem a aventuras militares: fora de combate.
Nesta estratégia de tudo pela guerra, nada pela paz, a Inglaterra andou sempre um passo à frente dos Estados Unidos, mas, com a surpreendente colaboração de Macron, foram conseguindo arrastar Biden, hesitando sempre primeiro, acabando por aceitar depois: conselheiros militares, partilha de informações sensíveis, sistemas de mísseis, tanques de última geração, F-16 e — é só esperar uns dias — os mísseis de longo alcance para atacar território russo. Tudo o que Zelensky tem pedido, mais tarde ou mais cedo, tem obtido. Só lhe falta, e já o lamentou, não dispor de armas nucleares — o que é uma ironia histórica, pois que, quando a Rússia deu a independência à Ucrânia, a grande preocupação ocidental foi justamente que Moscovo não deixasse para trás, em mãos ucranianas, as armas nucleares que ali tinha estacionadas.

A guerra da Ucrânia, evitável desde antes do início da invasão russa, tem sido a ruína da Europa: arruinamo-nos para comprar armas aos Estados Unidos e depois fornecê-las à Ucrânia (70% delas), vimos a Alemanha, o motor económico europeu, gripar devido ao fim das importações de petróleo e gás russo com a sabotagem dos oleodutos Nordstream (onde pára o inquérito, aberto há mais de ano e meio?), pagámos a guerra com inflação, com energia mais cara, com o fim do mercado importador russo, com dez passos atrás nas políticas de descarbonização, com uma descolagem brutal na competitividade da economia europeia face às dos Estados Unidos, China ou Índia: está tudo no Relatório Draghi, só não se diz porquê. Mas, graças ao alinhamento militante de uma imprensa submissa a acrítica como nunca tinha visto, a própria palavra paz tornou-se símbolo de rendição, quando não de conivência com Putin, e até, numa curiosa inversão de valores, um sinal de falta de solidariedade com os ucranianos que já morreram e os que ainda vão morrer. Um por um, todos os que ousaram tentar ou sugerir um acordo de paz para pôr fim à guerra, foram politicamente exterminados, as suas palavras deturpadas, as suas intenções vilipendiadas: Erdogan, o ex-PM israelita, Xi Jinping, o Papa Francisco, Lula da Silva, o Presidente do México, quem quer que não professasse o credo da guerra para sempre e até à vitória final. Nunca tantos se deixaram arrebanhar tão facilmente durante tanto tempo.

Para nos assustar e convencerem da sua razão, dizem-nos que se Putin não for contido, acabará sentado em Kiev, e não ficará por aí, como garantiu Kamala Harris. Nenhum dado, nenhum relatório de serviços secretos, nenhuma tese de observadores independentes, nenhuma análise séria e lógica confirma tal dedução, mas isso o que interessa? Mais depressa e com mais razões Putin concluirá que os mísseis de longo alcance disparados contra a Rússia não se deterão em objectivos militares ou estratégicos e rapidamente estarão a visar Moscovo ou São Petersburgo — e, aí sim, entrará em vigor a doutrina nuclear russa, que é conhecida e idêntica à das potências nucleares ocidentais. Então, o que esperam, o que querem estes loucos que nos governam? Atravessámos décadas de Guerra Fria a temer que qualquer estúpido acidente de percurso levasse alguém, de qualquer dos lados, a carregar no botão vermelho. A evitar cuidadosamente que qualquer dos lados fosse levado a sentir-se ameaçado ao ponto de perder a cabeça e carregar no botão. E agora andam a brincar com o fogo, testando até onde irá o sangue-frio e o juízo de alguém que eles próprios classificam como louco e assassino, como disse Biden. Quem são os loucos, então?

Outra das teses da propaganda dos discípulos da NATO é a de que qualquer negociação implicaria a cedência de territórios ucranianos. Porquê? Porque Putin o disse. Disse, sim, como Zelensky disse que exigiria a devolução da Crimeia. Qualquer negociação começa assim, com posições extremadas de ambos os lados, e o papel dos negociadores é levá-los a perceber, neste caso, que um acordo no meio termo é melhor para ambos do que uma guerra sem fim.
É muito fácil estar sentado aqui, no extremo ocidental da Europa a pregar que a NATO dispare os seus mísseis e não se preocupe com as armas nucleares de Moscovo. Mas se ele estivesse numa aldeia da Ucrânia, à mercê de bombardeamentos diários, a ver a sua casa destruída, os seus familiares e vizinhos mortos e uma vida sem outro futuro pela frente, quem sabe não acabaria a desejar a vitória de Trump nas eleições americanas? “A vida é uma história contada por um idiota”, escreveu Shakespeare.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Sem comentários:
Enviar um comentário