Governantes Europeus em Pânico
1 - Lá seguimos com expectativa defraudada a tertúlia dos governadores-gerais dos Estados-clientes caídos em desgraça ante o governo imperial de Washington. Se não se conseguem pôr de acordo sobre óleos vegetais, seria manifestamente severo esperar que aqueles náufragos conseguissem encontrar uma justificação que oferecesse à Europa e ao mundo uma só razão que legitimasse impedir o concerto da paz. Querem a guerra, mas não podem nem têm meios para exibir músculo. Querem meios para armar a Europa, destruindo-lhe o presente e o futuro, mas não querem exceder os 2% destinados à Defesa. Querem dar guerra a Putin, mas na hora decisiva, todos, salvo os pobres e patéticos britânicos, recusaram veementemente enviar tropas para a Ucrânia. A causa da UE, como sempre, uma causa sem efeito.

2 - Agora já querem sentar-se com Hitler?
Por que razão teria Putin de descer da condição de estadista para discutir com aquela pandilha desesperada, impotente e tóxica que ontem se reuniu aterrorizada em Paris, após lhe terem mentido entre 2014 e 2022 e, depois, o terem comparado a Hitler nos últimos três anos?

3 - A imprensa dá conta do propósito norte-americano em reduzir a remanescente Ucrânia a colónia de exploração, privá-la de todas as riquezas conhecidas e ainda das riquezas por descobrir, roubar-lhe qualquer futuro, num tal modelo «asteca» de rapina sistemática, implacável e grosseira que só nos ocorre o despudor e crueldade das cartas do rei Leopoldo II da Bélgica ao explorador Stanley. A franqueza norte-americana acaba por se revelar como didáctica e necessária para despertar os sempiternos ingénuos.
Tal como os britânicos no passado, o sistema de domínio americano baseia-se na invocação de grandes princípios para logo legitimar o esbulho sistemático. Agora que se tornou claro que a ajuda do "Ocidente" era movida por um misto de primitivismo anti-russo e apetite voraz em apossar-se dos recursos ucranianos, talvez se comece a esboçar um movimento de compreensão pelo medo russo em ter junto da sua fronteira tal entidade. No fim, os ucranianos terão de se virar para os seus irmãos russos para evitarem cair nas malhas da escravatura perpétua dos novos negreiros americanos.
Miguel Castelo Branco - 17-02-2025

Elites e o exército de soldadinhos de chumbo
O “espanto” e a “surpresa” que os dirigentes europeus dizem ter sofrido com o discurso de J. D. Vance, vice presidente dos EUA, na conferência de Munique deve ser entendido, isso sim, como causa de espanto e surpresa por parte dos cidadãos europeus. Esse espanto e essa surpresa das elites europeias revela a sua incompetência para entenderem vários aspetos essenciais mas básicos nas relações entre a Europa e os Estados Unidos.
Em Munique estiveram em confronto dois conceitos de sociedade e dois conceitos de elites, de classe dominante (ruling classes), que foram expostos numa obra clássica de 1945; “The American Business Elite: A ColIective Portrait”, Journal of Econorruc History” de Wright MiIIs. Os burocratas europeus não leram e agora agitam-se como moscas dentro de um prato de azeite.
O que Wright Mills explicou, ainda mal a Segunda Guerra havia terminado, é que a elite americana é constituída por um grupo cujo elemento definidor se encontra no domínio do poder económico, o que a distingue das elites europeias que surgem associadas à produção de ideias e à administração pública. Na Europa a entrada na elite é feita maioritariamente através formação técnica, e pelo acesso às grandes escolas, depende em boa parte do background social dos candidatos que são maioritariamente destinados a administrar o Estado. Pelo contrário, as elites dos Estados Unidos, são recrutadas no mundo dos negócios e dos produtores de violência (militares e agentes de serviços secretos — makers of violence). É esta elite económica e de ação violenta que controla o processo de tomada de decisão política para obter ganhos económicos. Para esta elite as guerras são negócios, um deve e haver.
Em Munique estiveram em confronto estes dois tipos de elites. A elite de Trump, semelhante à elite de Bush Jr que conduziu a invasão do Iraque e do Afeganistão, a elite de Clinton que conduziu o ataque à Sérvia e o desmantelamento da Jugoslávia. Os atores da trupe de Trump não são diferentes do vice Dick Cheney e de Rumsfeld no que diz respeito ao desprezo pelos europeus e pelos princípios! Os europeus presentes desconheciam estas personagens? Desconheciam Vitoria Nuland funcionária da CIA (da elite dos makers of violence) que serviu nas administrações de Trump e de Biden e pilotou o processo que levou a Ucrânia à política de ameaça à Rússia?

J D Vance referiu que o inimigo da Europa é a cristalização em que a Europa vive, a sua resistência à mudança, o emaranhado de poderes que se esgotam em quezílias de vaidades. A União Europeia, em contra ponto à Rússia e à China, vive hoje como se o mundo fosse o da Guerra Fria, as suas elites são burocratas que administram programas a que falta um desígnio, um objetivo estratégico além de satisfazer clientelas ao sabor das circunstâncias.
J D Vance foi a Munique dizer o óbvio: a Europa não justifica um inimigo externo! (O desprezo é a mais dolorosa ofensa.) Veio dizer que os Estados Unidos concluíram que a Europa é um peso morto e as elites americanas no poder, as do MAGA, partilham essa visão com as novas elites russa e chinesa, pragmáticas, rudes e focadas nos resultados. Um oligarca americano está muito mais próximo intelectualmente dos novos oligarcas russos ou até dos chineses (que são mais sofisticados) do que de um “enaca” ou de um politécnico francês, ou de um graduado por Oxford ou Cambridge. Sendo esta a visão que as elites americanas e russas partilham da Europa e dos seus dirigentes, porque carga de água a Rússia iria invadi-la e tomar conta dela, vir por aí abaixo, no imortal resumo de Ana Gomes, especialista em slogans dos gloriosos tempos de ouro do MRPP, para ocupar um continente de velhos e de burocratas, um asilo?
E assim chegamos ao absurdo delirante de, sem saberem o que fazer para se manterem no poder, os cérebros dos líderes europeus, os tais burocratas políticos, terem acendido a ideia luminosa de constituir um exército europeu! Isto num continente que não fabrica uma turbina para aviões de combate: a Rolls Royce a General Electic e a a Pratt&Whitney são americanas.
Uma passagem de olhos pela história da Europa revela que o último ataque à Europa ocorreu no cerco dos turcos (império otomano) a Viena em 1693! Uma leitura superficial sobre os conflitos do século XX permite concluir que os exércitos europeus são exércitos historicamente derrotados. Na Primeira e na Segunda Guerra, os exércitos francês, alemão, polaco e italiano foram derrotados desde os Alpes a Stalingrado, o exército inglês na Segunda Guerra, retirou-se da Europa continental com a dramática operação de Dunquerque. Foram os Estados Unidos e a União Soviética que impuseram a descolonização à Europa através das dinâmicas do Movimento Descolonizador. No século XX quem decidiu a sorte das armas na Europa foram os Estados Unidos, a ocidente, e a União Soviética, a leste, que dividiram o continente entre si em Ialta e Potsdam, como o vão fazer atualmente, parece que na Arábia Saudita, uma zona decisiva, essa sim, para negociar a divisão do poder do futuro entre dois dos atores que verdadeiramente contam.
Enquanto pelas arábias dois dos grandes poderes de facto decidem lancetar o furúnculo da Ucrânia para passarem ao sério conflito do Médio Oriente, em Paris um pequeno grupo de funcionários reúne-se para discutir um “exército europeu”!

Um “exército europeu” é uma figura que não passa de uma representação em miniatura da Grand Armée em miniaturas de soldadinhos de chumbo, um diorama! Os líderes europeus estão hoje em Paris, com Macron, de rabo para o ar a construir um diorama, ou um Lego. No final, se entre eles existir algum com senso e sentido de humor, esse gritará: Vamos mas é comer umas ostras!
Carlos Matos Gomes, 17-02-2025

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