quarta-feira, 1 de março de 2023

A China nas rotas do Mundo

O século 21 será chinês?


Enquanto Ocidente mergulha em crise democrática e económica, China expande-se e desafia. Quais as oportunidades e riscos — em especial para a América Latina?


Geopolítica & Guerra


por IHU - 20/12/2018 às 23:25


Depois de ter se transformado na “fábrica do mundo” e do seu PIB ter superado o dos EUA, a China também se tornou o “banco do mundo” e “estimula o crescimento de todo o continente asiático” por meio da iniciativa “Um cinturão, uma rota” (One Belt One Road), resume José Eustáquio Diniz Alves, ao comentar a ascensão económica e política da China. Essa iniciativa, esclarece, “visa construir redes de comércio e infra-estrutura ligando a Ásia com a Europa e a África, ao longo dos antigos caminhos comerciais da Rota da Seda, objetivando o compartilhamento do desenvolvimento e da prosperidade”. Um exemplo dessa proposta, é a inauguração da recente linha ferroviária que liga Londres à estação de Yiwi, no sul de Xangai. “Trata-se de uma interligação de Pequim e Xangai com o mundo”.


Na entrevista a seguir, Alves explica a relação da China com o BRICS, especialmente com a Rússia e a Índia, que formam, juntamente com os chineses, o “triângulo estratégico” que quer dominar a Eurásia. “A Eurásia é a faixa contínua de terra mais extensa do mundo. Ela é o berço das mais antigas e importantes civilizações do passado. A sua extensão territorial é de 54,8 milhões de km² (mais de seis vezes o tamanho do Brasil) e possui cerca de dois terços da população e do PIB mundial. Quem controlar a Eurásia, controlará o mundo.


De acordo com José Eustáquio Diniz Alves, “a ascensão da China e dos países aliados do Oriente pode significar o fim do modelo económico e político do liberalismo democrático burguês e o fim da ordem internacional fundada a partir da reunião de Bretton Woods, em 1944”. No seu lugar, passará a vigorar o “Consenso de Beijing”, que aposta na “promoção das economias em que a propriedade estatal continua tendo um peso dominante, na promoção de câmbio competitivo, com mudanças graduais para evitar choques e controle cambial para escapar da especulação predatória, em políticas de promoção das exportações com proteção da indústria local e dos setores estratégicos do país, em reformas de mercado, mas com controle das instituições políticas e culturais, e na centralização das decisões políticas e das estratégias de projeção nacional”. Essa possível mudança, adverte, que levará à “ascensão da Ásia e à emergência do processo de orientalização do mundo, sob liderança chinesa, pode não ocorrer de maneira pacífica diante do declínio relativo dos EUA e do Ocidente. Infelizmente, a Armadilha de Tucídides é como uma espada de Dâmocles suspensa sobre a ordem internacional e a possibilidade de paz mundial”.


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Dizia Ha Qiogwen: O Imperialismo americano precisa ser batido (1965)


Nos dia 8 e 9 de junho, o G7 (grupo formado pelas grandes economias capitalistas — Estados Unidos, Canadá, França, Reino Unido, Alemanha, Japão e Itália) reuniu-se em Charlevoix, no Canadá, onde o destaque foi o aumento da tensão entre os EUA e os outros seis membros, que estão insatisfeitos com a saída dos EUA da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), do Acordo de Paris (sobre o clima), do acordo nuclear com o Irão, além das críticas à NATO e das medidas para o enfraquecimento do NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte). Enquanto os líderes da ordem liberal-burguesa se desentendiam no Canadá, os países asiáticos se encontravam na 18ª cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, ocorrida nos dias 9 e 10 de junho, na cidade chinesa de Qingdao. Assim, os oito membros plenos da OCX são China, Rússia, Cazaquistão, Tadjiquistão, Uzbequistão, Índia e Paquistão. A OCX também tem quatro estados observadores e seis parceiros de diálogo. Os oito países membros respondem por mais de 60% do território eurasiático, quase metade da população global e cerca de 30% do PIB mundial. O PIB conjunto dos países da OCX é maior do que o PIB total do G7.


A cúpula de Qingdao foi a primeira a contar com os líderes do triângulo estratégico (RIC) e ainda teve a presença do presidente do Irão. O presidente Xi Jinping resumiu tudo dizendo: “A cúpula de Qingdao é um novo ponto de partida para nós. Juntos, vamos içar a vela do Espírito de Xangai, quebrar ondas e iniciar uma nova viagem para a nossa organização”. Ficou subentendido que é a viagem rumo à ascensão do século asiático e rumo à hegemonia chinesa global. Uma península coreana desnuclearizada e com menor presença americana só fortalece Rússia, Índia e China, que são potências nucleares da Eurásia e aliados no âmbito da OCX.


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Os países “emergentes” do mundo: Brasil, Rússia, Índia, China e, posteriormente, a África do Sul formam os BRICs cujos líderes do grupo se encontram em cúpulas anuais. Mas os factos que vieram fortalecer o grupo RIC ocorreram pela conjunção de três fatores recentes. O primeiro aconteceu durante o 18º Congresso do Partido Comunista Chinês, em novembro de 2012, com a escolha de Xi Jinping para o cargo de presidente da China, que, em seguida, lançou a iniciativa “Um Cinturão, Uma Rota” (One Belt One Road), que é um gigantesco projeto de infraestruturas, com investimentos de mais de US$ 1 trilhão, para unir, por terra e pelo mar, toda a Eurásia (incluindo partes da África).


O segundo facto foi a expulsão da Rússia do G8 — devido à anexação da região autonoma da Crimeia que aumentou as tensões entre os russos e a Ucrânia, e afastou o país da Europa e da aliança ocidental, forçando Vladimir Putin a buscar aliados no Oriente.


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Evidentemente, o país líder é a China devido ao seu tamanho económico, demográfico, territorial e à capacidade de influência política. Em 2017, segundo dados do FMI, o Produto Interno Bruto – PIB chinês foi de US$ 23,2 trilhões, volume muito superior aos US$ 9,5 trilhões da Índia, US$ 4 trilhões da Rússia, US$ 3,2 trilhões do Brasil e dos US$ 765 bilhões da África do Sul. Além da dimensão da economia, a China tem mais de US$ 3 trilhões em reservas internacionais, mega superávit na balança comercial e altas taxas de poupança, o que possibilita às empresas chinesas realizar grandes investimentos nacionais e globais.


    Clik na Imagem para ver A China e América Latina:


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A Eurásia é a faixa contínua de terra mais extensa do mundo. Ela é berço das mais antigas e importantes civilizações do passado. Sua extensão territorial é de 54,8 milhões de km² (mais de seis vezes o tamanho do Brasil) e possui cerca de dois terços da população e do PIB mundial. Quem controlar a Eurásia, controlará o mundo.


A China já esteve próxima da União Soviética – URSS, depois se afastou e se aproximou dos EUA, a partir da visita de Richard Nixon a Pequim, em 1972. Mais recentemente, China e Rússia se aproximaram bastante e a relação de Vladimir Putin com Xi Jinping é de grande coesão. A Índia sempre teve boa relação com a Rússia e grandes dificuldades com a China, especialmente devido às alianças e rivalidades com o Paquistão (envolvendo a disputa pela Caxemira). Mas depois dos diversos encontros entre Putin, Xi e Modi e após a 18ª cúpula da OCX parece que o triângulo estratégico (RIC) vai caminhar mais lado a lado, buscando tornar viável a unidade de ação no território da Eurásia.


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O avanço militar chinês no Mar da China causa grandes atritos com os vizinhos do leste asiático (além de ameaçar a presença norte-americana na região). Mas uma aliança do grupo RIC com o Irão e a Turquia é meio caminho andado para unificar os interesses e a logística da maior parte do território asiático da Eurásia.


A presença da China na Europa oriental é cada vez mais forte e a Rússia continua com laços fortes (especialmente no campo da energia) com esta região. Mas claro que a Europa ocidental vê o avanço da China e da Rússia com grande preocupação e até um certo medo.


Primeiro a China montou uma máquina azeitada de produção de bens de consumo de massa a preços baratos que invadiu todas as fronteiras e ocupou as prateleiras do planeta, tornando-se a fábrica do mundo. Em segundo lugar, com o dinheiro que acumulou no comércio internacional, fortaleceu suas instituições financeiras e passou a ser exportadora de capital, tornando-se, também, banco do mundo. Boa parte da rolagem da dívida americana depende do dinheiro de Pequim.


A Venezuela está totalmente “no bolso” dos chineses. Na Europa, o frágil grupo PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) depende cada vez mais dos investimentos chineses. Em terceiro lugar, a China pretende ser líder global da 4ª Revolução Industrial. Ela já está na liderança da produção de energia renovável e da transição da indústria automobilística do motor a combustão interna para os carros elétricos. Também lidera no uso de smartphone para as compras e pretende ser a líder isolada da Inteligência Artificial até 2025. Tem o supercomputador mais rápido do mundo e o maior centro de pesquisa de computação quântica. Seu projetado sistema de navegação por satélite competirá com o GPS dos EUA até 2020. No ano passado, a China ultrapassou os EUA e ocupou o primeiro lugar na produção mundial de artigos científicos.


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A Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota (One Belt One Road) visa construir redes de comércio e infraestrutura conectando a Ásia com a Europa e a África ao longo dos antigos caminhos comerciais da Rota da Seda, objetivando o compartilhamento do desenvolvimento e da prosperidade. As estatísticas mostraram que os bancos chineses já participaram de mais de 2.600 projetos — o que inclui investimentos — em uma ampla variedade de áreas, desde energia limpa até manufatura, tecnologia da informação e comunicações, transportes, portos e aeroportos, projetos hidráulicos, assim como desenvolvimento urbano e moradia, entre outras.


O porto de Gwadar e o corredor ferroviário, no Paquistão, permitirão ligar o oeste da China, através de uma ferrovia de 3 mil km e de um porto de águas profundas, ao Mar da Arábia. As conexões ferroviárias na região Ásia-Pacífico envolvem a ligação da região sudoeste de Yunnan a vários países da região, por meio de três rotas planeadas: uma central, que atravessa o Laos, a Tailândia e a Malásia para chegar a Singapura; uma rota ocidental que atravessa Myanmar e uma rota oriental que atravessa o Vietnam e Camboja.


Existem projetos ferroviários no Quênia, Etiópia e Senegal. Foi inaugurada, recentemente, uma linha ferroviária ligando Londres à estação de Yiwu, cidade ao sul de Xangai. Ou seja, trata-se de uma interligação de Pequim e Xangai com o mundo.


José Eustáquio Diniz Alves


- doutor em Demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – Ence/IBGE.


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